domingo, 8 de janeiro de 2012

Andamos distraídos ou fazem de propósito para nos distrair?


«Alguns príncipes, para manter, em segurança o Estado desarmaram os seus súbditos; outros, mantiveram divididas as terras subjugadas; outros nutriram inimizades contra si mesmos; outros, ainda, voltaram-se a conquistar os que lhes eram suspeitos no início do governo; alguns edificaram fortalezas, outros as arruinaram e destruíram» Maquiavel

Nos últimos dias o País centrou a actividade noticiosa em duas questões: a transferência para outro Estado da União Europeia da sede do maior accionista individual dum grupo económico ligado, principalmente, à distribuição alimentar levantou grande controvérsia, e a actividade e fiscalização dos “serviços secretos”, isto é do serviço de informações da república portuguesa, tendo sido abordada por um ângulo errado. Questões de “mercearia e avental”, como glosou um meu amigo.  
Andamos distraídos ou fazem de propósito para nos distrair?
A decisão do Grupo Jerónimo Martins de vender a totalidade do capital que detinha à sua subsidiária holandesa suscitou uma onda de comentários, na comunicação social, no Parlamento, nas redes sociais. Mas será, ou não, legítimo aos Países promoverem o investimento estrangeiro? Será legítimo à Holanda promover uma espécie de 'dumping' fiscal para competir com os restantes Estados-membros da União Europeia? Não fazem os portugueses o mesmo? ... ainda que, como é hábito, de forma menos eficiente! O investimento estrangeiro em Portugal, de que a Autoeuropa é o principal projecto, tem sido um sucessivo objectivo dos vários executivos portugueses, como o é do actual Governo, tal como resulta do Programa do XIX Governo Constitucional: «um dos principais eixos de acção da política externa portuguesa deve ser …. captação de investimento estrangeiro». Porquê, então, a celeuma, principalmente quando se sabe que 19 das 20 empresas cotadas no índice bolsista português PSI-20 têm a sede noutros países para pagarem menos impostos? Em vez de nos queixarmos, devemos tornar o País e a economia portuguesa atractivos, primeiro para as empresas portuguesas, depois para o investimento estrangeiro. Ser empresário em Portugal é um acto quase heróico: temos um sistema fiscal complexo que exige enormidades de dinheiro, em taxas, impostos e outras alcavalas a quem arrisca um tostão sequer num negócio, um sistema judicial que não protege os credores nem tão-pouco as empresas em dificuldades, um sistema bancário que desconfia do empreendedorismo, mas vamos pela solução mais fácil: a crítica pela crítica. Notícia não é a décima nona empresa do PSI-20 ter mudado a sede para o estrangeiro em busca de vantagens fiscais e estabilidade fiscal, notícia é haver ainda uma que se mantém estoicamente em Portugal.
Quanto às “secretas”, também aí o Programa de Governo é explícito na reforma que reserva para os serviços de informação da república portuguesa: «Valorizar o papel das informações, consagrando medidas de reforço de coordenação da sua actividade, que poderão passar pela implementação de um serviço único, com direcções separadas para a área interna e para a área externa, mas com serviços técnicos e de apoio conjuntos». Só um tolo não estaria à espera duma “luta de poder” dentro dos serviços de inteligência para ascender a “superdirector” do novo serviço de informações que englobará os actuais SIS e SIED! Mas o que preocupa – e devia preocupar-nos a todos – é que os serviços secretos andem em “roda livre” há largos meses, sem que o respectivo Conselho de Fiscalização (que tem por missão o controlo do serviços de informação da república portuguesa e é composto por três cidadãos eleitos pela Assembleia da República) cumpra a respectiva missão, como foi admitido por altos responsáveis e num recente relatório: não há fiscalização rigorosamente nenhuma à actividade dos serviços de inteligência e foram praticadas diversas irregularidades. Alguém foi responsabilizado?, demitido?, questionado? Que eu tenha notícia, não.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Da globalização ao euro: o fim do “sonho europeu”?



«fazer a Europa é fazer a paz» ― Jean Monnet

A queda do Muro de Berlim, em 1989, o final da Guerra Fria e o desmantelamento da União Soviética, por um lado, e o abandono da economia colectivista por parte da China e sua adesão ao sistema capitalista, por outro, promoveram a líder mundial a única superpotência que restou, os Estados Unidos da América (EUA), e iniciaram uma nova era da globalização, sob a égide do capitalismo anglo-saxão. Para trás, ficou a velha ordem dominada pela oposição entre duas superpotências separadas tanto pelas questões ideológicas, como pelo jogo dos equilíbrios estratégicos.
A conjuntura político-estratégica alterou-se profundamente.
Um cenário inédito na história da Humanidade: os capitais e investimentos passaram a circular de um lugar para o outro, sem quaisquer obstáculos fronteiriços, e a indústria da informática assumiu a vanguarda das inovações, construindo as auto-estradas de informação (p. ex., a Internet) necessárias a tais movimentos.
Com o fim da Guerra Fria e com a globalização, os Estados trataram de compor-se segundo sua proximidade geográfica: na Europa a União Europeia acelerou o processo de integração e unificação, criando mesmo uma moeda única – o euro –, chegando em 2007 aos, actuais, 27 Estados-membros, e tendo já acordado com a Croácia a respectiva adesão em 2013.
Mais de duas décadas passadas, como vivemos a globalização?
O ano de 2011, que agora finda, trouxe-nos – além de catástrofes naturais (p. ex., no Japão, um sismo seguido por um tsunami deixou o País perto duma catástrofe nuclear) e das revoltas políticas no Norte de África e o Médio Oriente – o acentuar da crise financeira na Europa, que mais não é que o resultado da crise bancária iniciada em 2008 com a queda do banco de investimento norte-americano Lehman Brothers.
Não há milagres para resolver a crise financeira que assola a Europa: a par dos políticos, um sem número de teóricos apresentam diariamente uma panóplia de receitas para a situação. Certo apenas será que há direitos a mais para a riqueza criada.
Ao euro apenas poderá valer o próprio euro: em dez anos a moeda europeia tornou-se a segunda moeda mundial e gerou a maior economia global. A zona euro engloba 17 países, com mais de 330 milhões de habitantes, é o segundo maior bloco comercial do mundo.
Todos dizem que o fim da zona euro e, concomitantemente, da própria União, teria, além perda do estatuto de potência mundial da Europa, custos incomensuráveis, nomeadamente com a falência do sistema bancário europeu. Nesse cenário, assistiríamos certamente a uma deslocação do poder mundial para a Ásia, liderada pela China.
Os próximos anos dirão se vivemos o princípio do fim ou apenas o início de uma refundação do “sonho europeu”, com ênfase na qualidade de vida, sustentabilidade e paz, apenas possível numa Europa coesa, unida e solidária.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Deveras


«Vangloriem-se as gentes do que quiserem, coragem ou erudição, inteligência ou espírito, êxito junto das mulheres, riqueza ou nobreza; quanto a nós, concluiremos que é justamente nesse capítulo que lhes falta qualquer coisa; aquele que possui realmente e em absoluto uma qualidade nem sequer pensa em alardeá-la ou presumi-la; está completamente tranquilo no que toca a esse assunto.»

A. Schopenhauer, in «Aforismos»



O que é a verdade? É uma questão que tem evidente ressonância bíblica e à qual os evangelhos não dão uma resposta pronta e literal. Pelo contrário, quando Pilatos interroga Jesus nesse sentido - «Quid est Veritas?» -, Jesus responde-lhe com o mais absoluto silêncio, um silêncio enorme, imenso, completo, que vem atravessando os séculos.

Naturalmente que não é das grandes questões metafísicas que se vai pretender tratar aqui. Antes das pequenas verdades quotidianas, feitas e esculpidas pelo Homem, e à escala humana, as quais se revelam, normalmente, meras verosimilhanças ou, por vezes, a mais trivial das mentiras.

Pois tal como se educa uma criança dizendo-lhe que não deve meter o dedo no nariz, também se lhe ensina que não deve mentir. Diz-se, calmamente, que, tanto uma coisa como a outra, são coisas feias de se ver e piores de se fazer. Então a criança compreende que, por limpar o nariz com o dedo, terá de limpar o dedo de seguida, talvez nos calções, que, depois, terão de ser limpos também. Enfim, todo um processo fastidioso, um pouco sujo (para não dizerranhoso”), evitável pelo bom uso de lenços de papel. Ora, analogamente, sucede com o acto de mentir. Basta dar a perceber à criança que a verdade, embora à primeira vista possa não o parecer, é sempre mais simples, bonita e, até, vantajosa do que a mentira. De facto, uma vez chegada à idade adulta, constatará pela conduta de certas pessoas que, quando foram pequenas, do tamanho dela, lhes ensinaram injustamente o oposto: que bom e vantajoso era mentir. O que, a seu tempo, acarretará, para essas mesmas pessoas, consequências normalmente penosas e muito pouco vantajosas: com efeito «nunca ninguém enganou toda a gente o tempo todo».

Em suma, aprender a assoar o nariz e a assoar a mentira, logo de pequenino, contribui bastante (a par dos outros grandes desafios da vida) para a edificação de uma sociedade mais próspera, decente e evoluída.

(Publicado no jornal «O Primeiro de Janeiro», em 22 de Dezembro de 2011)

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Destino, acaso ou coincidência?

«É impossível levar o pobre à prosperidade através de legislações que punem os ricos pela prosperidade. Por cada pessoa que recebe sem trabalhar, outra pessoa deve trabalhar sem receber. O governo não pode dar a alguém aquilo que não tira de outro alguém. Quando metade da população entende a ideia de que não precisa trabalhar, pois a outra metade da população irá sustentá-la, e quando esta outra metade entende que não vale mais a pena trabalhar para sustentar a primeira metade, então chegamos ao começo do fim de uma nação. É impossível multiplicar riqueza dividindo-a.»

A queda do primeiro-ministro grego, o socialista George Papandreou, e o desastre eleitoral das esquerdas em Portugal e Espanha não são episódios isolados de mudanças políticas a reboque da crise financeira.
Apesar da miríade de problemas que a União Europeia enfrenta e da crescente afirmação do “eixo” franco-alemão, estas transformações foram germinadas já há muito tempo.
Não será surpreendente que, nas actuais condições económicas, as forças políticas de esquerda percam sucessivas eleições a favor das de direita?
Não será tão surpreendente se atentarmos que as políticas dos vários governos socialistas por essa Europa fora dependiam de um único factor: o crédito barato concedido aos Estados e às respectivas economias pelos mercados financeiros internacionais. A actual crise financeira fechou a torneira do crédito barato, o que impediu que o socialismo continuasse a financiar a sua megalomania social, incomportável face ao crescimento da riqueza produzida por cada País.
Se há um limite de tolerância para todos os sacrifícios que vamos ter de suportar nos próximos anos, também haverá um limite para a impunidade de todos quantos nos colocaram nesta situação e hipotecaram o futuro – a curto ou a logo prazo, logo veremos – das gerações que nos seguirão: prometeram-nos o Paraíso e deram-nos o Inferno.
A Europa, e em particular a Península Ibérica, terá de apostar na reabilitação da economia pelo estímulo ao investimento e ao trabalho, não – como até aqui – no patrocínio da “subsídio-dependência” e no incentivo do laxismo e da preguiça. É essencial uma viragem no modo de funcionamento da economia, é essencial acabar com a tendência generalizada dos empresários e empreendedores para culpar o seu falhanço empresarial por falta de apoio do Estado.
O Estado não tem, necessariamente, que apoiar pela forma a que estamos habituados (subsídio e benefício fiscal), tem apenas que não se intrometer em demasia na iniciativa privada, nem embaraçar a actividade empresarial com impostos exorbitantes, exigências formais desmesuradas e burocracias desajustadas. Esse já será o grande apoio do Estado ao investimento.  
A solidariedade não se faz desbaratando dinheiro, arruinando os Países e hipotecando o futuro das gerações vindouras, é necessário incentivar a criação de riqueza e encontrar o ponto de equilíbrio com a promoção do bem comum.
Como escreveu Vasco Pulido Valente, «o Estado Social Europeu é insustentável e está a roubar o futuro às novas gerações. (…) A realidade e a vida é trabalho, sacrifício e vontade de vencer.».

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

AUTO DA BARCA

Foi notícia na semana passada que o governo da Venezuela desistiu de comprar ao estado português um ferryboat produzido nos estaleiros navais de Viana do Castelo.

Dobraram os sinos, a pátria chorou.

De facto, exactamente há um ano, o governo daquele país, na pessoa do seu presidente Hugo Chávez, passou algumas horas às compras em Portugal na companhia do então primeiro-ministro português, José Sócrates. E um dos objectos do seu interesse comprador foi justamente o ferryboat que agora não quer comprar.

Na altura, o Sr. Chávez - logo após descer do carro que o próprio conduziu festivamente desde o aeroporto Sá Carneiro até aos estaleiros navais de Viana - depressa trepou ao convés da embarcação e dali à cabine produzindo com alegria uma promessa de compra que sinalizou com um buzinão. Contudo, pouco depois, já em terra firme, admitiu aos jornalistas que a razão da sua passagem por Portugal se resumia essencialmente a um gesto de solidariedade para com «o amigo» Sócrates, que atravessava um momento político difícil, não obstante se tratar, em seu entender, de «un buen hombre» e de «mui buena persona».

Passado um ano, ninguém poderá acusar o Eng. Sócrates de ser ainda primeiro-ministro de Portugal. Como talvez ninguém suspeite que possa ter deixado de ser, desde então, uma excelente pessoa. Pelo contrário, tudo levará a crer que a promessa de compra-e-venda de ferryboats ao estado português por parte do governo venezuelano se deveu menos à generosidade petrolífera do Sr. Chávez do que ao sincero reconhecimento das inequívocas virtudes de carácter do Eng. Sócrates.

Por conseguinte, resta concluir que ao actual governo venezuelano não parece bem celebrar negócios jurídicos com os adversários dos seus amigos; em especial com aqueles que venceram amigos seus através de eleições livres.E, nesse âmbito, estarão com certeza o governo venezuelano e o presidente daquela república ao abrigo do seu mais pleno direito: o direito à moda deles.


(Publicado no jornal «O Primeiro de Janeiro», em 22. 11)

domingo, 20 de novembro de 2011

União Europeia: depois da paixão, a realidade?

«― Por mais talentos com que tenhas sido dotado, nem sempre consegues encher a barriga, ao passo que, se tiveres um instinto apurado, isso garante-te que nunca passarás fome.» ― Haruki Murakami, 1Q84

Tradicionalmente Portugal sempre foi um País afoito a problemas: ciclicamente confrontamo-nos, como Nação, com problemas para os quais muitas das vezes não descortinávamos solução. Durante séculos lá nos fomos “desenrascando”, essa forma lusa de resolver os problemas no último minuto e “às três pancadas”.
Depois da euforia da década de 90 do século passado, caímos na realidade, sentimo-nos envergonhados por termos desbaratado quantias escandalosas de dinheiro em tão pouco tempo e de forma tão leviana. Tal como num namoro, depois do encantamento caímos na dura realidade do dia-a-dia: acabaram-se os jantares românticos à luz das velas, os fins-de-semana em locais cosmopolitas ou recônditos, as flores, os presentes sofisticados, etc.
Como se não bastasse, olhamos em volta à cata dos culpados e sentimo-nos impotentes, uns chegaram – inclusive com o nosso voto –  a lugares demasiado altos para que lhes possamos sequer tocar, outros passeiam-se pelo estrangeiro, outros, ainda, vivem pacatamente com reformas e subvenções escandalosas que achamos por bem atribuir-lhes pela sua dedicação à “causa pública”, uns quantos são reputados gestores de empresas de referência, e uns poucos vão, a conta-gotas, prestando contas à Justiça.
 Estamos falidos, sentimo-nos encavacados e resignamo-nos. Resignamo-nos à ditadura do poder económico, à severidade social das políticas económicas, à falta de um horizonte com que sonhar e de uma meta em que acreditar que não seja amealharmos dinheiro para reembolsar os nossos credores.
Durante quase nove séculos de história – da fundação à independência dos espanhóis, passando pelos descobrimentos –, soubemos usar o instinto para vencer os adversários e as adversidades, antecipando os perigos, congeminado soluções e gizando estratégias. Mas no final do século passado deixa-nos enamorar pela “bella” Europa, pelo dinheiro fácil, pelo reluzente desenvolvimento económico dos “parceiros” europeus, pelo perfume inebriante da riqueza dos estrangeiros, e negligenciamos como nunca antes havíamos descurado: acabamos com a agricultura e as pescas, produzimos apenas uma ínfima parte do que consumimos, gastamos o que tínhamos e o que não tínhamos, sabe-se lá em quê.
Percebemos, nesta época de aflição, que também a “bella” Europa já não nos olha com o mesmo olhar enamorado de há duas décadas: de melhor aluno da Europa – se é que alguma vez o merecemos ser –, rapidamente passamos a calaceiros e a quase indigentes. E agora?
Agora, temos uma União Europeia sem rumo nem estratégia, qual barco desgovernado ao sabor de ventos e marés, que não tem homem no leme para responder de viva voz às três rodas dos mostrengos dos mercados financeiros.
Como já escrevi, a União Europeia, tal como a conhecemos, desintegrar-se-á nos tempos mais próximos, e ignoramos qual o edifício político europeu que se poderá construir com os escombros. Portugal, talvez pela primeira vez, não teve um instinto apurado para antecipar tal desfecho. Ninguém pareceu verdadeiramente preocupado na destreza da matemática que fatalmente chega em fim de festa: durante anos, discutiu-se, de forma mais ou menos ardilosa, para ver quem pagava a festa, poucos se preocuparam como será ela paga...

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O testamento vital grego


«Há muito poucas repúblicas no mundo, e mesmo assim elas devem a liberdade aos seus rochedos ou ao mar que as defende. Os homens só raramente são os dignos de se governar a si mesmos.» ― Voltaire


A crise grega transbordou fronteiras e transformou-se rapidamente no drama da sobrevivência do sonho europeu, representado, contemporaneamente, por pouco mais que uma união política, económica e monetária a duas velocidades.
Por estes dias, a “zona euro” ficou à beira do caos após o anúncio do primeiro-ministro grego, George Papandreou, de referendar o novo pacote de ajuda a económica ao País acordada com a União Europeia e o FMI, ou seja, no fundo – como logo emendaram alguns líderes europeus –, confirmar a permanência da Grécia na moeda única europeia.
Entre avanços e recuos, crises políticas e pedidos de formação de um Governo de “salvação nacional”, Papandreou, acossado pela ameaça da suspensão da ajuda económica acordada, “deu o dito pelo não dito”, resolvendo internamente a crise criada pela indigitação de um novo primeiro-ministro.
Mas, a questão que põe é: será, ou não, legítimo à Grécia escrever uma espécie de “testamento vital”?, isto é, decidir do seu destino, escolher a que medidas de ajustamento económico se quer sujeitar.
Se é certo que a imposição pelos credores de condições para a concessão do empréstimo com vista a, no futuro, serem reembolsados é perfeitamente razoável e decorre da mais elementar sensatez, parece que também é lícito à Grécia aceitar, ou não, tais condições, arcando, já se vê, com as consequências do imaginável colapso financeiro no caso de optar pela recusa, que mais não seria que uma inevitável saída do euro.
Sabe-se que as últimas medidas de ajustamento impostas pelos credores ao Governo grego conduzirão, previsivelmente, a uma severa recessão económica de, pelo menos, um par de anos e um nível de desemprego de atingirá cerca de um quinto da população activa. Parece pois pertinente conceder ao povo grego o direito, inalienável, de se pronunciar sobre a aceitação dessas injunções.
Aqui chegados, levanta-se uma outra questão: os Tratados prevêem a possibilidade dos Estados-membros abandonarem a moeda única? E em que circunstâncias? A verdade é que não! Em termos legais a construção da zona euro não prevê a possibilidade de “desistência” apenas da moeda única: o Tratado de Lisboa admite, no seu artigo 50º, a possibilidade de um País decidir a sua saída da União Europeia, mediante uma negociação, mas não da moeda única. Ou seja, abandonar o euro parece – além muito caro e praticamente inviável para um país como a Grécia –, juridicamente bastante difícil, pois actualmente só será possível saindo simultaneamente da União Europeia.
Nesta linha, Mario Draghi, o novo presidente do BCE, confirmou recentemente que o abandono da moeda única por um Estado «não está previsto no Tratado» e que, por isso, não é possível de ser equacionada, salientando, no entanto, que a situação grega é «excepcional e única».
Chegados a esta conclusão, cuido que o título desta crónica deveria ser “A quadratura do círculo”.

domingo, 6 de novembro de 2011

Viagens na minha terra

Através de um partido político, um indivíduo funcionalmente analfabeto é eleito (crê-se por essa soberana razão) vereador de uma câmara municipal de uma remota vila cujo nome não me lembro.

Como é curiosamente comum entre aquelas pessoas que a vida faz o favor de nos apresentar à distância, o mesmo indivíduo demonstra, por contraste com a própria envolvente social e económica que o gerou, uma ambição descontrolada, o apetite imbecil pelo lucro fácil e todo o apelo da fama reles.

Assim, constituído ministro de concelho, decide levar a cabo a sua primeira iniciativa política, de cariz monetarista: dirige-se a um banco e pede um empréstimo para comprar um carro; o que, de resto, lhe é concedido. Ora a aquisição do carro (imagine-se um belo carro), ainda que por esse método, impressiona bastante a simpática povoação que o viu nascer, e que passa a considerá-lo uma personalidade realmente impressionante.

De seguida, a troco de alguns secretos favores e de algumas garrafas de vinho, assume uma segunda medida política, agora de pendor social: arranja emprego ao filho de um sujeito incrivelmente obtuso e tragicamente insolvente (também por isso bastante popular no povoado) - como seu "adjunto".
O rapaz passa então da preguiça dos cafés e dos bares para os afãs de secretário, de assessor, de pau mandado... Em abono da verdade, ninguém ali sabe ao certo o que o rapaz é; e, menos ainda, o que o rapaz faz. Diz-se, até, maldosamente, que nem ele próprio sabe.

Mas, enfim, esqueçamos este diabo e voltemos ao encontro do outro, que, agora, no mais íntimo da sua soberba, sente que vingou décadas de miséria pessoal e familiar. Em sua justiça considera-se mesmo um ás! E na churrascaria que ainda frequenta, os empregados e o dono são exactamente dessa opinião.

Já na assembleia municipal - nessa prodigiosa fábrica de talentos políticos que é uma assembleia municipal - as opiniões nem sempre são consensuais.
Na ordem do dia discute-se, ao estilo de uma bela zaragata do Minho, a construção de uma infraestrutura desportiva, ou qualquer coisa parecida com isso, porque ali parece fazer muita falta a construção de uma infraestrutura desportiva ou de qualquer coisa que com isso se pareça.

O nosso personagem, vê-se, definitivamente, no seu elemento: e manifesta-se fervorosamente a favor da ideia da obra pública; do desporto em geral; do plano director municipal; dos regulamentos; da legalidade; da Constituição; da União Europeia... Do diabo a quatro! Tudo num discurso que parece que roça e esbarra com a mais lúgubre das bebedeiras... E, para reforço da sua posição, convoca duas linhas desse grande democrata que foi Maquiavel!... Linhas que, num dos seus regulares momentos de ócio, descortinou na tradução brasileira do wikiquote!, e depressa copiou para o iphone, como sendo seu emblema e divisa.

Faz-se silêncio na sala. Melhor dizendo: fica tudo rigorosamente aparvalhado. Ainda mais do que é costume. E perante o olhar lorpa daquela gente, o homem explica que acabava de invocar "um sábio"! "estrangeiro"!...
Os demais presentes, por alguns segundos, cofiam sombriamente os queixos e as cabeças e, por fim, alguém manda que se redija também aquilo «em acta», «para que conste», e prossegue-se responsavelmente com «a ordem de trabalhos».



(Publicado na «Revista do Advogado» de Novembro de 2011)

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O Legado

I)

A casa e os terrenos adjacentes tinham sido pertença de um burro que atravessara a fronteira vindo de Espanha e que, passado algum tempo, contraía ali matrimónio com uma senhora portuguesa - falecendo num dos três dias subsequentes às núpcias, de causa inexplicável. O certo é que Dª Antónia, a viúva, após o sucesso desta fatalidade, imediatamente assumiu, por direito próprio, a gestão e a propriedade da quinta, não voltou a casar e viveu um século.

Crê-se, também, que não teve filhos.

II)

Não era ainda o meio século.

Desde a longínqua Lisboa, um indivíduo sombrio anunciava eleições livres!, tão «livres como na livre Inglaterra!». Coisa bisonha. Lá, para lá dos montes, para além dos quebrados das montanhas, nas veias da serrania, nunca ninguém escutara tamanha cousa. Excepto uma senhora viúva, que era mulher atenta, nascida ao tempo do Ultimatum, e que, ao deitar, apreciava brandy.

III)

Soube-se legatário de um edifício medieval que originalmente havia sido um seminário, adquirido e transformado em casa de lavoura, no último quartel do Séc. XIX, por um brasileiro que ali enterrara a sua pequena fortuna. Este homem não só pagou uma soma avultadíssima pela compra como mandou derrubar e levantar a seu gosto muros e paredes durante uma década. Acabou transmitindo por venda a propriedade a um forasteiro que lhe desposou a filha única.


(Publicado na coluna «O homem que era Quarta-Feira» de «O Primeiro de Janeiro», em 02. 11. 2011)

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Poema da Ortografia

...contra a falência da expressão escrita...
Poema da ortografia

HÁ ou À como é que escrevo?
Oh que grande problema!
Nunca sei fazê-lo bem,
Fico sempre num dilema.

Se quero dizer que EXISTE,
Sei que escrevo com Hagá:
HÁ bolachas e HÁ biscoitos
Esta não me faz gagá!

HÁ barulho! HÁ silêncio!
HÁ peixinho bem fresquinho!
HÁ pessoas na estrada.
HÁ castanhas e bom vinho!

A dificuldade aumenta
Se quero falar de tempo:
HÁ muitos dias atrás?
Ou À muitos dias? Tormento!!

Ora até esta questão
É bem fácil de explicar
Sempre que contarmos ‘tempo’
O hagá vai abancar:

HÁ quinze dias atrás;
Há dois meses, pois então!
HÁ anos! Há pouco tempo!
Bem ‘farcinho’, não é não?

E agora vem aí
Outra dúvida a valer:
O HÁ já eu sei escrever,
Então a outra? Posso saber?

O À com acento grave
Acompanha o feminino
Pois ele é preposição
Mais artigo definido.

Se eu puder trocar o À
Pela expressão «A UMA»
Então já posso dizer:
-Não tenho dúvida alguma!:

Vou À praia (A UMA praia);
À pergunta ele fugiu.
À menina respondi!
«A UMA» também surgiu.

Outro teste eficaz
Para saber distinguir,
É usar o MASCULINO
Numa frase a seguir:

Dei À mãe ou dei AO pai;
Vou À Festa ou AO cinema;
ÀS terças ou AOS feriados;
Deixa assim de ser problema.

E, agora, finalmente,
ÀS ou ÁS que confusão!
ÀS é plural de À;
ÁS é de campeão!

Só uso o Ás com as copas,
Com paus, espadas e ouros
Ou para dizer a alguém
És um Ás, mereces louros!

Espero que tenha ajudado
Toda a gente a perceber
Não HÁ coisa mais bonita
Do que o saber escrever!

Paula Castelo Branco